Avançar para o conteúdo principal

Os valores na cibercultura


Um questionamento constante que se faz à cibercultura é quanto aos valores que ela defende. Ela propõe novos valores? Sim e não! Como não tem um centro director, são inúmeros os valores, e contravalores, presentes e difundidos pela rede. Porém, alguns se destacam. O filósofo Pierre Levy, no livro Cibercultura, responde dizendo que “a cibercultura pode ser considerada como herdeira legítima (ainda que longínqua) do projecto progressista dos filósofos do século XVIII, pois valoriza a participação em comunidade de debates e de argumentação”.
As bandeiras iluministas da igualdade, liberdade e fraternidade, propulsoras da Revolução Francesa e da sociedade moderna, continuam de pé na cibercultura, mas com nova face. A igualdade virtual está na possibilidade que cada indivíduo tem de se conectar com todos e enviar informações a toda comunidade virtual. A conexão é igual sempre, não há hierarquias, classes, raças etc. A igualdade está também no fato de todos serem editores, produzirem e partilharem conhecimentos e informações. Por fim, e principalmente, ela incentiva uma maneira de reciprocidade essencial nas relações humanas.
A cibercultura é extremamente democrática. A liberdade é o valor mais preservado e incentivado porque todos são livres para darem sua interpretação, colaborarem na produção intelectual, escolherem o que querem ver, ler, ouvir, fazer... A liberdade de expressão e de criação é valorizada ao extremo, tanto que se encontra de tudo no ciberespaço. O controle do que é saudável ou não, frutífero ou não, bom ou ruim, também é fruto da liberdade, acessa-se o que se quer, sem burocracia, sem exclusões. O acesso transfronteiriço a qualquer comunidade virtual é a maior expressão da liberdade na cibercultura, tudo está nas nossas mãos, basta um toque.
A fraternidade, por sua vez, transparece na interconexão mundial e na mútua colaboração na construção do conhecimento (inteligência colectiva). É expressa também nas comunidades virtuais e grupos de debates, que partilham experiências, sofrimentos, angústias, alegrias... Às vezes chegam a formar uma “família”, interligada por um objectivo, um ideal. A análise das comunidades virtuais, dos blogs e principalmente dos sites de relacionamentos é muito interessante. As pessoas que se encontram nestes espaços virtuais possivelmente nunca se viram, apenas trocaram informações via internet, mas se tratam como velhos amigos, como se convivessem há tempos. Os blogs expõem a vida diária das pessoas, incluído acções e sentimentos. São verdadeiros “livros abertos” que revelam a vida por inteiro. Por isso merecem crédito e possuem grande interacção.
A amizade virtual ainda é vista com certo preconceito. Como se a pessoa que se dedica a tais amizades fosse incapaz de relacionamentos reais, como se estivesse se escondendo de algo. Defendo com vigor que as amizades virtuais são saudáveis e têm muito a contribuir com os jovens. A questão é o modo como utilizar os meios. Aí entra o papel do educador e dos pais. Como vimos acima, os valores na cibercultura não são diferentes dos valores da sociedade tradicional. São herdeiros do iluminismo. O que muda é o modo como transmitimos esses valores, assim como muda o modo de educar. Os pais e educadores devem estar atentos a estes aspectos.
A nova relação com o saber conduz o ser humano à personalização do conhecimento e à consequente diversidade de pontos de vista. Isso exige um novo modelo de educação, a passagem da educação institucionalizada à troca de saberes, à partilha mútua, à construção colectiva (inteligência colectiva). A educação que emerge da cibercultura é aberta e a distância, o que possibilita a personalização e a diversificação provenientes da interconexão e da comunidade virtual. A aprendizagem torna-se um trabalho colectivo e o professor também assume novo papel. Na cibercultura ele é animador da inteligência de um grupo (uma comunidade virtual) e não mais um fornecedor de conhecimento.

Os valores defendidos pela Igreja também não são alterados, pois é possível estabelecer-se um diálogo no campo ético e ressaltar os valores da liberdade, igualdade e fraternidade, presentes na cibercultura, para promover uma práxis cristã. Apesar de muito na cibercultura ser anárquico, o diálogo no campo ético é bem aceito e aí a fé cristã encontra um horizonte de actuação, um receptáculo. A fé é uma ética também, pois propõe um estilo de vida, um ethos, e como tal encontra um caminho aberto na mentalidade virtual.
Igualmente a promoção e luta pelos direitos humanos fazem parte da fé e se apresentam na cibercultura, esperando uma resposta. O profeta, que sempre foi a voz que se levantou contra as injustiças sociais, continua a ter seu lugar na cibercultura, e é auxiliado pela universalidade que sua crítica alcança. Uma voz que clamava no deserto agora clama no ciberespaço, e abrange o mundo todo, diferentes culturas, povos, classes sociais, idades etc. O que está faltando não é espaço e abertura do mundo virtual, mas profetas. Propor uma acção prática que transcenda o mundo virtual é um desafio que a comunidade cristã precisa responder e estar pronta para testemunhar.

Publicado na revista O Cooperador Paulino e revista On Line

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Munificentíssimo Deus

No editorial de Maio, recordamos a forte devoção à Nossa Senhora presente na comunidade cristã desde os primeiros tempos. Esta estima é confirmada mais uma vez neste mês de Agosto, pois no próximo dia 15 celebramos a Assunção de Maria ao Céu. Esta devoção surgiu no século IV, em Jerusalém, e é celebrada desde o século VI pelas igrejas do Oriente como solenidade. Chamada inicialmente de “trânsito” ou “dormição de Maria”, difundiu-se no Ocidente a partir do séculoXIV. Em 1 de Novembro de 1950 a Assunção de Nossa Senhora foi proclamada dogma de fé, pelo Papa Pio XII, através da bula Munificentissimus Deus. Após estabelecer a relação entre a Imaculada Conceição e a Assunção, e resumir os testemunhos da crença na Assunção, a devoção dos fiéis e o testemunho dos Santos Padres, Pio XII escreve: «Depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus omnipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para ho...

Carismas a serviço da Igreja

Maio é o mês mariano por excelência. Nossa atenção está voltada sobretudo para a Mãe e Rainha, sinal de acolhida, de encontro, de fé e de amor. Entretanto neste mês de Maria o Papa Francisco também nos convida a direcionar nossa atenção e orações para os diversos movimentos e grupos eclesiais, que simbolicamente podem ser vistos como este grande manto de Maria que, em nome do Filho Jesus, se abre para acolher, proteger e unir todos seus filhos. A intenção de oração de maio, apresentada pelo Papa Francisco no seu recente vídeo do mês, convida-nos a rezar “ para que os movimentos e grupos eclesiais redescubram cada dia a sua missão evangelizadora, pondo os próprios carismas a serviço das necessidades do mundo ”. “ A serviço ”, enfatiza o Papa. De fato, cada movimento é independente, mas estão todos a serviço da Igreja, ou seja, devem trabalhar em harmonia e unidade com os bispos e as paróquias. É essa característica de serviço que mantém o dinamismo da missão dos movimentos eclesiais, qu...

Do descarte ao acolhimento

  No seu vídeo do mês de setembro, o Papa Francisco apresenta e questiona algumas contradições do nosso tempo, convidando-nos a rezar pelos “ invisíveis ” da sociedade.  O Papa chama a atenção de todos nós para um problema histórico, mas que tem se agravado na sociedade contemporânea:  a indiferença . Ao mesmo tempo em que o ambiente digital e as novas formas de comunicação, sobretudo as redes sociais, permitem uma superexposição de pessoas e situações, por outro lado essas mesmas redes excluem tudo o que considera “desagradável”, feio, pouco atrativo. Tratam com indiferença um grupo muito grande de pessoas, por não serem “comercialmente interessantes”. No seu vídeo do mês, o Papa indica categorias de pessoas que se tornaram invisíveis por questão de pobreza, dependência, doença mental ou deficiência, mas se pensarmos bem existem tantas outras pessoas excluídas dos perfis digitais maquiados e inflados por diversos estratagemas comerciais a fim de atrair e cativar. Superex...