
O ser humano vive em um constante processo de autocompreensão e autoconstrução. Para tanto, é fundamental a sua relação consigo mesmo, com o mundo, com o outro e com o transcendente. Na cibercultura esses conceitos não se alteram. Ao contrário, são intensificados, uma vez que o principal objectivo da cibercultura é a interligação, tanto de pessoas quanto de informações. Ela abre novas possibilidades que podem ajudar em muito a crescermos pessoal e espiritualmente.
A cibercultura entende o corpo humano não no seu aspecto físico, mas enquanto presença intencional, um meio de comunicação, de expressão, de contacto com o outro e com Deus. O ser humano é um ser actuante, tanto no mundo “real” quanto no “virtual”, que é construído e habitado por seres reais, que interagem, se comunicam e crescem a partir de sua experiências.
Mesmo no mundo virtual, o que buscamos é a relação, o contacto com o outro. A vantagem é que este outro não está aprisionado aos limites do tempo e do espaço. Os encontros se dão sobretudo pela dimensão profunda de cada ser humano e não pela expressão corporal (estética), como em geral acontece. A pessoa está despida de qualquer tipo de preconceito e medo. Entra em contacto com o mais íntimo do outro, com sua consciência, seus pensamentos, suas diferenças, seus ideais... A relação com o outro, mesmo que mediada por um instrumento (computador), não perde sua essência, seu valor e sua importância.
Muitas pessoas consideram as relações virtuais frias e distantes. Às vezes podem ser, mas em geral não. Quem mergulha na cibercultura faz isso intencionalmente, procurando algo. A maioria em busca de algo positivo, apesar das excepções, como em todo lugar. Essa abertura ajuda a criar novas amizades e ajuda também a aprofundar a espiritualidade. Por estar aberto a novos contactos, a pessoa está aberta a novas experiências espirituais também. Assim desenvolve a sua espiritualidade, visto que espiritualidade é a actividade através da qual trabalhamos ou desenvolvemos o nosso espírito, a nossa alma. Sem dúvida a melhor forma de trabalharmos o nosso espírito é buscando Deus no outro, através das virtudes e das boas acções.
A estrutura espiritual (espírito) é o lugar da manifestação do sentido da vida, e o nível que o ser humano se abre à transcendência. A busca de significados é intrínseca ao ser humano, em tudo procura ver o sentido último, e se manifesta essencialmente como pensamento (conhecimento) e acção (liberdade). Não é difícil ver aqui a relação com a cibercultura, que impele todos à busca livre do sentido da realidade, de sua existência, de seu papel no mundo. O espírito, enquanto conhecimento que busca a verdade e acção que visa o bem, está em perfeito acordo com a teoria da cultura do virtual. Esta relação excede a comunidade humana e o horizonte da história, para entrar em contacto com uma realidade que ultrapassa a humana, que pode ser o transcendente formal (o sentido absoluto que se manifesta como verdade, experiência noética, ou bem, experiência ética) e o transcendente real (o Existente absoluto ou Deus, experiência metafísica).
A concepção de comunidade virtual é fundamental neste processo. Não existe fé cristã se não for eclesial, comunitária! Mas o mundo virtual é acessado individualmente, não existe uma comunidade material como conhecemos ou como o cristianismo exige para gerar e alimentar a fé, uma comunidade que transmite a fé recebida, que celebra os sacramentos, que vive a fraternidade, a unidade etc. De fato, se pensarmos tradicionalmente a comunidade diríamos que cibercultura não é um ambiente que propicia a vivência da fé e da espiritualidade. Mas isso não é verdade, pois existem muitas formas de vida comunitária no ciberespaço. A cibercultura favorece muitas maneiras novas de encontro e partilha que determinam as relações, dão início a uma comunidade unida por ideais, inclusive ideais religiosos. Ela põe em contacto pessoas que vivem muito distantes umas das outras. É uma possibilidade de encontro para pessoas que vivem isoladas, para cristãos que não podem participar de uma “comunidade real”, para cristãos que vivem em ambiente de conflito e perseguição, que não podem manifestar publicamente sua fé, e principalmente como um complemento para a vida de fé eclesial tradicional.
Se “comunidade é o lugar de expansão da afectividade e de crescimento” e “crer em Igreja significa partilhar em comum uma mesma interpretação de fé, uma mesma esfera de interesses, um mesmo mundo de significados, um horizonte de compreensão” (J.B. Libânio), o ciberespaço oferece um óptimo ambiente comunitário para a vivência da fé. Basta fazermos o caminho de ir ao encontro de Deus a partir das relações com os outros. Deus se manifesta em todas estas relações. Quanto mais próximos, fraternos, solidários, caridosos nós formos, mais perto de Deus estaremos. Isso é viver a espiritualidade e isso é cada vez mais possibilitado e exigido pela cibercultura.
Publicado em O Cooperador Paulino e na Revista OnLine
A cibercultura entende o corpo humano não no seu aspecto físico, mas enquanto presença intencional, um meio de comunicação, de expressão, de contacto com o outro e com Deus. O ser humano é um ser actuante, tanto no mundo “real” quanto no “virtual”, que é construído e habitado por seres reais, que interagem, se comunicam e crescem a partir de sua experiências.
Mesmo no mundo virtual, o que buscamos é a relação, o contacto com o outro. A vantagem é que este outro não está aprisionado aos limites do tempo e do espaço. Os encontros se dão sobretudo pela dimensão profunda de cada ser humano e não pela expressão corporal (estética), como em geral acontece. A pessoa está despida de qualquer tipo de preconceito e medo. Entra em contacto com o mais íntimo do outro, com sua consciência, seus pensamentos, suas diferenças, seus ideais... A relação com o outro, mesmo que mediada por um instrumento (computador), não perde sua essência, seu valor e sua importância.
Muitas pessoas consideram as relações virtuais frias e distantes. Às vezes podem ser, mas em geral não. Quem mergulha na cibercultura faz isso intencionalmente, procurando algo. A maioria em busca de algo positivo, apesar das excepções, como em todo lugar. Essa abertura ajuda a criar novas amizades e ajuda também a aprofundar a espiritualidade. Por estar aberto a novos contactos, a pessoa está aberta a novas experiências espirituais também. Assim desenvolve a sua espiritualidade, visto que espiritualidade é a actividade através da qual trabalhamos ou desenvolvemos o nosso espírito, a nossa alma. Sem dúvida a melhor forma de trabalharmos o nosso espírito é buscando Deus no outro, através das virtudes e das boas acções.
A estrutura espiritual (espírito) é o lugar da manifestação do sentido da vida, e o nível que o ser humano se abre à transcendência. A busca de significados é intrínseca ao ser humano, em tudo procura ver o sentido último, e se manifesta essencialmente como pensamento (conhecimento) e acção (liberdade). Não é difícil ver aqui a relação com a cibercultura, que impele todos à busca livre do sentido da realidade, de sua existência, de seu papel no mundo. O espírito, enquanto conhecimento que busca a verdade e acção que visa o bem, está em perfeito acordo com a teoria da cultura do virtual. Esta relação excede a comunidade humana e o horizonte da história, para entrar em contacto com uma realidade que ultrapassa a humana, que pode ser o transcendente formal (o sentido absoluto que se manifesta como verdade, experiência noética, ou bem, experiência ética) e o transcendente real (o Existente absoluto ou Deus, experiência metafísica).
A concepção de comunidade virtual é fundamental neste processo. Não existe fé cristã se não for eclesial, comunitária! Mas o mundo virtual é acessado individualmente, não existe uma comunidade material como conhecemos ou como o cristianismo exige para gerar e alimentar a fé, uma comunidade que transmite a fé recebida, que celebra os sacramentos, que vive a fraternidade, a unidade etc. De fato, se pensarmos tradicionalmente a comunidade diríamos que cibercultura não é um ambiente que propicia a vivência da fé e da espiritualidade. Mas isso não é verdade, pois existem muitas formas de vida comunitária no ciberespaço. A cibercultura favorece muitas maneiras novas de encontro e partilha que determinam as relações, dão início a uma comunidade unida por ideais, inclusive ideais religiosos. Ela põe em contacto pessoas que vivem muito distantes umas das outras. É uma possibilidade de encontro para pessoas que vivem isoladas, para cristãos que não podem participar de uma “comunidade real”, para cristãos que vivem em ambiente de conflito e perseguição, que não podem manifestar publicamente sua fé, e principalmente como um complemento para a vida de fé eclesial tradicional.
Se “comunidade é o lugar de expansão da afectividade e de crescimento” e “crer em Igreja significa partilhar em comum uma mesma interpretação de fé, uma mesma esfera de interesses, um mesmo mundo de significados, um horizonte de compreensão” (J.B. Libânio), o ciberespaço oferece um óptimo ambiente comunitário para a vivência da fé. Basta fazermos o caminho de ir ao encontro de Deus a partir das relações com os outros. Deus se manifesta em todas estas relações. Quanto mais próximos, fraternos, solidários, caridosos nós formos, mais perto de Deus estaremos. Isso é viver a espiritualidade e isso é cada vez mais possibilitado e exigido pela cibercultura.
Publicado em O Cooperador Paulino e na Revista OnLine
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