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Deus e cibercultura combinam?


Vivemos num momento privilegiado da história, o alvorecer de um novo milénio, que é particularmente marcado pela velocidade das transformações políticas, económicas, sociais, culturais e tecnológicas. A cada dia que passa somos atingidos por uma avalanche de informações inimagináveis em outros períodos da história da humanidade. Neste ambiente dito cibercultura somos levados a questionar-nos se é possível e se ainda tem sentido falar da relação com Deus. A princípio parecem coisas dicotómicas e impossível de conviverem. Mas se compreendermos a nova concepção antropológica que nasce com o advento do mundo virtual, podemos dar alguns passos na discussão deste tema e na obtenção de uma nova forma de viver a fé.
Muito mais do que um conjunto de órgãos e tecidos, o corpo é o que dá constituição e expressão ao ser humano. Não se restringe à presença puramente física, material. Na cibercultura, importa mais a dimensão do corpo como presença intencional, o homem está no mundo em situação fundamentalmente activa, é ser-no-mundo e não simplesmente estar-no-mundo. Corpo é o meio de comunicação, de expressão, de contacto com o outro, mesmo que virtualmente. A partir dessa compreensão, o ser humano, sujeito em contínua autocompreensão e autoconstrução, estabelece três relações fundamentais em busca de sua expressão no mundo: relaciona-se com o mundo (objectividade), com o outro (intersubjectividade) e com o absoluto (transcendência).
A relação de objectividade se caracteriza pela não reciprocidade, o ser humano configura o mundo como interconexão de coisas, eventos, representações e significados: este mundo é essencialmente linguagem e relação. O contacto do homem com o mundo virtual traz uma nova concepção de tempo e espaço que influencia na sua compreensão da realidade. A relação de subjectividade é marcada pela reciprocidade, é a relação com o outro. Esta é a forma mais clara de relação da cibercultura, e o ponto fundamental na constituição das comunidades virtuais, redes de relacionamento e conversas instantâneas.
A relação menos evidente na cibercultura, mas não menos verdadeira, é a de transcendência, relação com o absoluto. Ela excede a comunidade humana e o horizonte da história, para entrar em contacto com uma realidade que ultrapassa a humana, que pode ser o transcendente formal (a verdade ou o bem) e o transcendente real (Deus).
A partir da relação de transcendência podemos nos perguntar: O ciberespaço é um espaço sagrado? É local para manifestação de Deus? À primeira vista o ciberespaço não parece ser um local que possibilite a manifestação de Deus, não permite a re¬velação, uma epifania, por ser frio, impessoal, um local abstracto... Mas analisan¬do-o mais profundamente vemos que é local de testemunho, de for¬mação, de comunicação, de acção e contemplação, e por que não de encontro com Deus.
O ciberespaço é um espaço sagrado, é um local onde o ser humano pode plenificar-se na graça de Deus, é local que possibilita a revelação e o contacto com Deus. Michel Benedict chegou até a afirmar que a cibercultura é a nova Jerusalém, local de saber, versão digital da cidade celeste. Relevante no entanto é saber como é possível tal manifestação de Deus. Como reconhecer a acção do Espírito Santo como incentivador e propulsor da fé? Como ver Jesus Cristo como o centro da fé neste ambiente tão fragmentado e eclético? Como reconhecer Deus criador e redentor num espaço imaterial, em constante expansão?
Todas essas questões nos conduzem a uma reflexão sobre a história da revelação de Deus ao ser humano, procurando encontrar na cibercultura uma nova etapa da história da salvação/revelação. Todo ser humano, pela criação, é destinado a este encontro de amor. Ao longo da história, Deus utilizou-se de diversos instrumentos para se comunicar ao homem e para revelar seu plano de salvação, chegando ao auge na encarnação. Mas a revelação continua após a ressurreição de Cristo, apesar de já se apresentar definitiva. A cibercultura pode não apresentar novidades na revelação, mas é uma nova forma de Deus manifestar-se e de atingir um novo povo, uma sociedade essencialmente “pagã”. Um novo rebanho em potencial, aberto a novidades, procura seu sentido de vida no mundo digital e abre um espaço para a comunidade cristã apresentar a sua fé.
A fé que é mediada por este universo, porém, tem suas particularidades. As expressões da fé não são absolutas, não se sustentam mais em dogmas, mas em experiências éticas, de paz, de confiança... e principalmente de sentido da vida. A fé virtual é uma resposta ao vazio existencial da inutilidade humana no ambiente tecnicista, onde a máquina é o centro e o ser humano um operador. A busca por Deus revela a busca por algo que transcenda o universo técnico, por algo que dê sentido à existência, aos sentimentos, à vivência ética. A fé no ambiente virtual tem consciência de que é apenas um caminho entre tan¬tos outros possíveis. É o seguimento de Cristo diante de uma gama de guias es¬pi¬rituais e ideológicos. Por ser uma decisão livre e selectiva, é fruto de uma busca consciente e interessada.
Muitas novidades estão por vir, mas o que deve estar presente em nossas mentes é que a fé nunca vai perder a sua dimensão de mistério, e como tal age independentemente da acção humana, de modo maravilhoso e também imprevisível.


publicado na Revista On line (Argentina) e O Cooperador Paulino (Brasil)

Comentários

Anónimo disse…
Olá Darlei, estou gostando muito de ler seu blog. Voltarei mais vezes.

Agora minha opinião:
"Deus e cibercultura combinam?" Pelo que entendi no texto, aliás belíssimo, o meio virtual é apenas um dos caminhos que Deus utiliza-se para revelar seu plano de salvação. Concordo plenamente, e é claro que embora o meio utilizado seja virtual (uma novidade!), não há porque esperar novidades, no conteúdo, pois a palavra de Deus é uma só. Apenas não concordo quando o texto afirma que "a fé virtual é uma resposta ao vazio existencial da inutilidade humana no ambiente tecnicista, onde a máquina é o centro e o ser humano um operador". Acho que não. Pelo pouco que sei, essa questão já foi há muito superada, restando concluido que na tecnologia computacional o homem é peça primordial. Ele sabe que o computador não passa de uma ferramenta. Exclui-se aí o motivo que daria azo ao vazio existencial antes referido. Confesso que não entendi muito bem a expressão "fé virtual" e onde ela possa situar-se nesse contexto que trata especificamente da comunicação da palavra de Deus em meio virtual. É que, para mim fé é fé. Pura e simplesmente. Acho ótimo a gente ter possibilidade de acessar a palavra de Deus à nossa vontade, na hora que quisermos e também interagir livremente com as pessoas da rede! No meu entender Deus e cibercultura são totalmente compatíveis. E a fé resulta fortalecida.
Um abraço.

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