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Artesãos das gerações futuras



No seu primeiro vídeo do ano, o Papa Francisco põe em evidência os educadores. A intenção de oração do mês convida a rezar para que “os educadores sejam testemunhas credíveis, ensinando a fraternidade em vez da competição e ajudando em particular os jovens mais vulneráveis.

Francisco enfatizou em diversas ocasiões a importância da educação e dos educadores. O Pacto educativo global é prova da sua preocupação com a questão. Lançado em outubro de 2020, mas já anunciado em 2019, o Pacto é um chamado para que todas as pessoas no mundo, instituições, igrejas e governos priorizem uma educação humanista e solidária como modo de transformar a sociedade. Baseia-se em 7 compromissos fundamentais: colocar a pessoa no centro de cada processo educativo; ouvir as gerações mais novas; promover a mulher; responsabilizar a família; abrir-se à acolhida; renovar a economia e a política; cuidar da casa comum.

Na concretização desse Pacto, os professores e educadores têm papel principal, como o próprio Papa afirmou aos participantes do Seminário Educação: O Pacto Global: “No novo pacto educativo, a função dos professores, como agentes da educação, deve ser reconhecida e apoiada com todos os meios possíveis. (...) Desejo, neste momento, prestar homenagem aos professores – os sempre mal pagos – porque, diante do desafio da educação, eles vão adiante com coragem e perseverança. Eles são artesãos das gerações futuras”. 

Para o Papa, os professores e os educadores em geral são testemunhas de vida e de esperança. São artesãos do futuro, pois deles depende a formação das novas gerações. “É uma missão importante, que aproxima tantos jovens ao bem, ao belo e ao verdadeiro”, recordou em um dos seus primeiros twitters, em junho de 2014. Seguindo a orientação do Papa, parece-nos muito importante refletir sobre a necessidade atual da sociedade de encontrar bons educadores, pessoas que sirvam como referencial para as crianças, modelos que conduzam as futuras gerações por um caminho de crescimento e realização pessoal.

Temos, até em excesso, pseudomodelos ou influenciadores, que prometem conduzir à felicidade e ao sucesso, mas acabam por difundir o individualismo, a ansiedade, e com frequência a frustração. Prometem caminhos fáceis para o sucesso, mas levam a caminhos sombrios, que não chegam a destino algum. Insistem que o momento atual é o que importa, quando na verdade não podemos dissociar o presente do passado e do futuro; da história que nos dá as bases e nos molda, e do futuro que nos espera e que será construído pelo esforço e dedicação de cada um de nós. 

Se queremos um futuro digno, promissor e feliz para o mundo, precisamos de bons educadores. Paulo Freire costumava dizer que “não é possível refazer o país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” O grande filósofo e educador estava convicto de que é preciso ensinar os alunos a lerem o mundo para que eles consigam transformá-lo.

Educar é construir, é libertar o ser humano do determinismo, é dar alternativas, é mostrar que se pode ir além, que podemos melhorar sempre e continuamente. Não é um simples ato de transmissão de conhecimento, mas um processo que se realiza no contato da pessoa com o mundo dinâmico e em transformação contínua. Exige diálogo constante, troca contínua, partilha de experiência, crescimento conjunto. Educar é antes de tudo comunicar: comunicar valores, expetativas, alegrias, experiências. É ensinar a pensar e a agir. Por isso o educador é sempre testemunha credível, e não se pode falar em educação sem amor. Essa era a pedagogia de Cristo, nosso Mestre. Não transmitia doutrinas, mas vida. Não falava em conceitos, mas por analogias e parábolas. Aproximava-se das pessoas e falava a cada uma da maneira que ela compreenderia, tocando-lhe o coração mais do que a mente. Cristo falava através de suas ações, através de seus gestos, e por isso seu ensinamento penetrava profundamente naqueles que o escutavam e seguiam. 

Associando-nos ao Papa Francisco, rezemos ao longo deste mês por todos os educadores, recordando de modo particular aqueles que contribuíram e ainda contribuem para nossa formação e crescimento. Boa oração e bom ano a todos!

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