Avançar para o conteúdo principal

Defender a dignidade humana



Na sua intenção de oração para o mês de setembro, o Papa Francisco chama nossa atenção para uma problemática aparentemente superada, mas que continua a ameaçar a dignidade humana, pois é ainda muito presente em diversos pontos do mundo. O Papa pede para rezarmos “para que a pena de morte, que atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa, seja abolida nas leis de todos os países”.

Para termos uma ideia de como essa é uma realidade ainda presente no mundo, o último relatório da Anistia Internacional sobre o tema (disponível no site amnesty.org) mostra que em apenas metade dos países pesquisados a pena capital foi totalmente abolida. Em 36 países a pena de morte é hoje permitida por lei e está em vigor, enquanto em outros 50 ela foi abolida na prática mais é ainda prevista na lei. Em outros poucos países ela foi abolida para crimes comuns, porém é prevista para casos excepcionais como crimes de guerra. No Brasil, os registros históricos apontam a última execução por pena de morte no dia 28 de abril de 1876, em Pilar das Alagoas, no entanto ela foi oficialmente abolida apenas com a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. 

Segundo dados do mesmo relatório da Anistia Internacional, somente em 2021 a China condenou mais de 1.000 pessoas à pena de morte, sendo seguida pelo Irã, com mais de 300 execuções, o Egito (85+), a Arábia Saudita (65+), a Síria (24+), a Somália (21+) e o Iêmen (14+), dentre outros. Coréia do Norte e Iraque anualmente condenam à morte dezenas de pessoas, mas o relatório não apresenta dados concretos pela dificuldade de recolher informações de tais países. Nessa perspectiva, certamente os números relativos a diversas nações mencionadas no relatório são maiores do que o exposto. O que impressiona ainda mais é que países considerados “avançados” e democráticos, como os Estados Unidos e o Japão, a pena de morte ainda é praticada, e com regularidade: em 2021 os norteamericanos executaram 11 pessoas, enquanto os japoneses três. 

A problemática exposta pelo Papa Francisco através do seu vídeo do mês faz-nos ir além da discussão sobre a legalidade ou não da pena capital. Somos exortados, enquanto cristãos, a refletir sobre a dignidade humana, que é desrespeitada de forma total na pena de morte, mas que vem sendo desrespeitada de muitas outras formas na sociedade atual. 

A dignidade da pessoa é um valor fundamental, previsto na Declaração dos Direitos Humanos e inclusive na Constituição Brasileira (art. 1º, inciso III), tendo como foco a garantia da vida digna e do pleno desenvolvimento de cada indivíduo. Desde sua origem o cristianismo contribuiu para a construção deste conceito, assim como para a garantia da sua concretização e respeito. Exatamente porque é missão do cristão defender a dignidade da pessoa, o Papa Francisco retoma o tema e o propõe para nossa oração e reflexão. 

Ao longo deste mês, especialmente marcado pelo discernimento em vista das eleições de outubro, que cada um de nós e cada uma das nossas comunidades cristãs saiba aproveitar o convite do Papa para discutir e aprofundar a questão da pena de morte e, sobretudo, da inviolabilidade e da dignidade da pessoa.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Munificentíssimo Deus

No editorial de Maio, recordamos a forte devoção à Nossa Senhora presente na comunidade cristã desde os primeiros tempos. Esta estima é confirmada mais uma vez neste mês de Agosto, pois no próximo dia 15 celebramos a Assunção de Maria ao Céu. Esta devoção surgiu no século IV, em Jerusalém, e é celebrada desde o século VI pelas igrejas do Oriente como solenidade. Chamada inicialmente de “trânsito” ou “dormição de Maria”, difundiu-se no Ocidente a partir do séculoXIV. Em 1 de Novembro de 1950 a Assunção de Nossa Senhora foi proclamada dogma de fé, pelo Papa Pio XII, através da bula Munificentissimus Deus. Após estabelecer a relação entre a Imaculada Conceição e a Assunção, e resumir os testemunhos da crença na Assunção, a devoção dos fiéis e o testemunho dos Santos Padres, Pio XII escreve: «Depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus omnipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para ho...

Necessidade de uma conversão ecológica

Em outubro passado, através de uma vídeo-mensagem enviada aos participantes do “Countdown”, evento TED mundial sobre mudanças climáticas, o Papa Francisco dizia: “ Estamos vivendo um momento histórico marcado por desafios difíceis. O mundo está abalado devido à crise causada pela pandemia de Covid-19, o que evidencia ainda mais outro desafio global: a crise socioambiental. Isto coloca-nos, todos, diante da necessidade de uma escolha. A escolha entre o que é importante e o que não é. A escolha entre continuar a ignorar o sofrimento dos mais pobres e a maltratar a nossa casa comum, a Terra, ou comprometer-nos a todos os níveis a fim de transformar o nosso modo de agir.” Um ano passou e continuamos a enfrentar momentos difíceis, o que nos leva a refletir ainda mais intensamente sobre a temática enfatizada pelo Papa, ou seja, que  a crise sanitária está plenamente associada à crise socioambiental . Se não passarmos a cuidar da Casa comum, através de uma “conversão ecológica”, não conse...

Do descarte ao acolhimento

  No seu vídeo do mês de setembro, o Papa Francisco apresenta e questiona algumas contradições do nosso tempo, convidando-nos a rezar pelos “ invisíveis ” da sociedade.  O Papa chama a atenção de todos nós para um problema histórico, mas que tem se agravado na sociedade contemporânea:  a indiferença . Ao mesmo tempo em que o ambiente digital e as novas formas de comunicação, sobretudo as redes sociais, permitem uma superexposição de pessoas e situações, por outro lado essas mesmas redes excluem tudo o que considera “desagradável”, feio, pouco atrativo. Tratam com indiferença um grupo muito grande de pessoas, por não serem “comercialmente interessantes”. No seu vídeo do mês, o Papa indica categorias de pessoas que se tornaram invisíveis por questão de pobreza, dependência, doença mental ou deficiência, mas se pensarmos bem existem tantas outras pessoas excluídas dos perfis digitais maquiados e inflados por diversos estratagemas comerciais a fim de atrair e cativar. Superex...