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O poder da Palavra de Deus

A liturgia de hoje, 15º domingo do Tempo Comum, reserva-nos um tema muito especial, que é a reflexão sobre o poder da Palavra de Deus. Inúmeras vezes ouvimos dizer que a “palavra” é viva e eficaz, e de facto assim o é. No nosso quotidiano já fazemos experiência de quão importante é a palavra, que ao mesmo tempo pode libertar ou ferir. Algo poderoso depende sempre do modo como o utilizamos, e isso vale também para a palavra: a nossa palavra e a palavra de Deus, que recebemos principalmente através da Bíblia.
Logo na primeira leitura o profeta Isaías recorda-nos que nenhuma palavra voltará para Deus sem cumprir a sua missão no mundo. Vemos o quanto a palavra de Deus é transformadora. Como a água que fecunda os campos e possibilita que os frutos cresçam, assim também é a palavra, que fecunda o ser humano, nutre o nosso ser, transforma-nos interiormente e por isso possibilita que tenhamos uma ação completamente nova, inspirada, altruísta. Isaías faz-nos pensar também no poder e na necessidade da evangelização hoje. Deus conta com cada um de nós, seus discípulos, para proclamar a Sua palavra no mundo, no ambiente onde vivemos, no nosso meio familiar, entre amigos, no trabalho, nos locais de convívio. Evangelizar é acima de tudo dar testemunho, e dar testemunho da palavra que ouvimos e meditamos. Não devemos ter medo de repetir a palavra que recebemos, de passar adiante, de anunciar o evangelho de Cristo. Guardar esta riqueza somente para nós é egoísmo, pois estamos privando outras pessoas de serem transformadas, de também elas produzirem muitos frutos.
A palavra de Deus é também um conforto, como podemos ver na carta de Paulo aos Romanos. Muitas vezes a mensagem Bíblica pode trazer força para superarmos momentos de dificuldade, ou iluminar o nosso caminho na superação de situações delicadas. Paulo encoraja a comunidade, que certamente enfrenta a perseguição e a oposição dos adversários, com a certeza de que Deus cumpre sempre a sua palavra e no último dia nos acolherá em seu reino. Deus se revelou no antigo testamento através da sua palavra e de modo definitivo através do Verbo encarnado, Jesus Cristo, seu Filho. E esta revelação mostra também como é de facto o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus. A nossa revelação definitiva acontece assim quando estamos em plena comunhão com Deus, libertos de tudo o que é material.
No evangelho temos uma das mais belas parábolas de Jesus, que mostra exatamente o efeito e o poder da Palavra. É uma das poucas parábolas que trazem em si uma interpretação, servindo assim de chave-de-leitura para todas as demais parábolas e para todo o conjunto dos evangelhos. Nesta parábola compreendemos principalmente porque Jesus utilizou este recurso linguístico para interagir com os seus interlocutores. Ele próprio diz-nos que fala em parábolas para que as pessoas vejam sem ver, e ouçam sem ouvir. Para que as pessoas sejam tocadas e transformadas pela palavra sem precisar compreender a sua totalidade.
Jesus profere esta parábola num contexto específico, o conflito com as lideranças político-religiosas, mas ela reflecte ao menos três realidades bastante claras. A primeira é que Jesus, a palavra encarnada, é o primeiro e principal semeador. Ele veio ao mundo para semear o reino e fazê-lo crescer entre nós. Alguns não o ouviram, outros foram sufocados, e poucos o seguiram, mas o seu reino cresceu, e cresce continuamente.
O segundo momento é o tempo em que Mateus redige o seu evangelho. A comunidade enfrenta muitos conflitos e fracassos. A fé tem uma forte oposição que impedem o reino de crescer, mas nada impede que a semente continue a ser lançada e cumpra o seu papel.
O terceiro momento é o hoje. Nós devemos ser os semeadores. Assim como os apóstolos ao conhecerem os mistérios do reino sentiram-se obrigados a proclamá-lo ao mundo, nós, hoje, ao sermos tocados pela palavra, devemos proclamá-la ao mundo de todas as formas possíveis.
Todos somos terrenos férteis. O que impede a semente de frutificar não é a pessoa que a recebe, mas o contexto externo: as aves, os espinhos, as pedras. São pessoas e estruturas externas que impedem o crescimento do reino e que a justiça se estabeleça no mundo. Por isso devemos combater estas estruturas e impedir que elas interfiram na nossa vida de fé. Devemos vencer a superficialidade que impede a semente do reino de criar raízes. Devemos vencer a pressão da sociedade laicizada e a oposição dos que não são cristãos. Devemos vencer as tentações da riqueza e do poder que nos sufocam. Devemos vencer o egoísmo que nos torna estéreis.
Como a chuva que vem do céu ou a semente que cai em terreno fértil, o Reino vai frutificar e não ficará sem efeito. O tempo que isso levará depende da nossa caminhada na fé e maturidade espiritual. Depende apenas de como reagimos às muitas oportunidades que Deus nos dá de nos tornarmos férteis e produtivos.

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