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A fé como fonte do equilíbrio físico e psíquico


Quem já teve, ou tem, algum caso de usuário de droga na própria família sabe como é difícil conviver com esta situação. São tantos os momentos de incerteza, de angústia, de medo, de raiva, de dor... mas também são muito os momentos de esperança e fé. Consciente de tais problemáticas, neste mês o Papa Francisco nos pede exatamente para rezar pela superação das dependências, ou mais especificamente: “Rezemos para que todas as pessoas sob a influência de dependências sejam bem ajudadas e acompanhadas”.
Normalmente quando se fala de dependência, se pensa no álcool ou em drogas químicas ou sintéticas. De fato estas são as formas de dependência mais comuns e evidentes, com resultados negativos imediatos. Entretanto cresce consideravelmente outras formas de “vícios” ou dependências, especialmente ligadas ao mundo virtual. São sempre mais frequentes os relatos de crianças e jovens dependentes de videojogos, mas também do uso da internet, de celular e outros dispositivos eletrônicos. Existe hoje até mesmo um termo para determinar a doença que causa dependência destes equipamentos: chama-se nomofobia, ou seja, medo de ficar sem conexão (do inglês “no mobile”).
Na mesma tendência vêm a dependência por “likes” nas redes sociais, que leva os jovens (mas também adultos e crianças) a apresentar uma identidade e comportamento fictícios (fake), ou enfrentar desafios inauditos apenas para se fazer notar no mundo digital. Alguns correm grandes perigos para impressionar os seus “seguidores” virtuais e acumularem assim reações e comentários positivos. A situação chegou a tal ponto que algumas redes sociais (por exemplo Instagram) resolveram eliminar a visualização pública do número de “likes” a fim sobretudo de diminuir esta corrida inútil e viciante. 
A internet e o mundo digital intensificam ainda formas tradicionais de dependência, como o vício por compras, apostas (jogos de azar) e pornografia. Protegidos por um suposto anonimato e pela facilidade de acesso a tais páginas, é sempre maior o número de pessoas que se tornam dependentes de site de compras, de apostas online ou de fotos e vídeos pornográficos. Entram em um ciclo difícil de superar, precisando da mesma ajuda e acompanhamento que os dependentes químicos necessitam. É por isso comum vermos hoje grupos de apoio similares aos Alcoólicos anônimos, mas para as novas dependências digitais.
Existem ainda as dependências ligadas ao ritmo alucinante da vida moderna, como o trabalho e o hiperativismo. Num ensaio breve mas muito profundo intitulado “Sociedade do cansaço”, o filósofo Byung-Chul Han alerta para os perigos de uma sociedade viciada no trabalho, que conduz a consequências como a depressão, o déficit de atenção, a hiperatividade, a síndrome de Burnout, etc. A falta de repouso e de pausa imposta pelo mundo moderno não leva só à fadiga física, mas gera sobretudo um esgotamento da alma. “Esta sociedade deveria redescobrir o valor da contemplação e do repouso”, afirma o autor. Daqui a importância de vivermos bem os momentos litúrgicos e de oração, aproveitando-os como uma oportunidade para um regenerar-se não só espiritualmente, mas também fisicamente. 
Enfim, poderíamos elencar tantíssimas dependências do ser humano contemporâneo. É importante, no entanto, tomar consciência de que ninguém é totalmente imune a tais males. Visto que estão presentes em tantas dimensões da nossa vida, a única forma de evitá-los é buscar – sobretudo nas relações humanas e na confiança em Deus – o apoio necessário para levar uma vida equilibrada e serena; buscar numa vida espiritual e afetiva equilibrada o suporte para não ceder às tentações. Mais importante ainda é estarmos atentos para identificar um possível vício nas pessoas que nos rodeiam e estar disponíveis para ajudá-las a superar tal dependência. Exatamente por isso, o Papa nos convida neste mês de abril a rezar “para que todas as pessoas sob a influência de dependências sejam bem ajudadas e acompanhadas”. 

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