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Pela Igreja chinesa


Há cerca de um ano tive a oportunidade de visitar Macau e Hong Kong, duas regiões administrativamente independentes, mas politicamente ligadas à China, ou seja, oficialmente são territórios chineses. Ali conheci diversas pessoas e pude experimentar de perto como vivem os católicos chineses. Neste mês em que o Papa Francisco nos propõe como intenção de oração os fiéis da China – “Rezemos para que a Igreja na China persevere na fidelidade ao Evangelho e cresça na unidade” – gostaria de partilhar convosco alguns elementos significativos dessa experiência. 
Viajei a Macau e Hong Kong em missão, para realizar alguns trabalhos ligados ao apostolado da nossa congregação, a Sociedade de São Paulo (Paulinos), pois temos ali uma comunidade religiosa. Nas diversas reuniões que tive também participaram alguns membros chineses da Família Paulina. Apesar de a Sociedade de São Paulo não ter comunidade na China continental, estamos presentes através de dois de nossos chamados institutos agregados, um dedicado a mulheres que se consagram (professam votos de pobreza, obediência e castidade) mas continuam a viver no contexto eclesial, familiar e profissional de origem: as Anunciatinas; e outro dedicado a sacerdotes diocesanos que se associam à missão paulista através de um voto, os membros do Instituto Jesus Sacerdote. 
Os testemunhos destes consagrados é impressionante. Primeiramente pela grande mobilidade (“jeitinho”) que devem ter para “driblar” todos os impedimentos e controles postos pelo Governo comunista, que busca reprimir ao máximo a organização da Igreja e as suas diversas atividades. Existem igrejas e paróquias, obviamente, mas, por exemplo, é muito difícil distribuir a Bíblia. Na China são impressas milhões de Bíblias a cada ano, mas elas não podem ser distribuídas internamente, devem ir diretamente da tipografia para o porto de exportação. O Governo concede apenas autorizações pontuais para a difusão da Palavra de Deus. Os Paulinos, através da sua organização SOBICAIN, conseguiram algumas destas autorizações, distribuindo ao longo dos últimos 20 anos cerca de 800.000 Bíblias gratuitamente nas paróquias chinesas, respondendo apenas em uma pequena parte à necessidade da Igreja local. Muitas mais seriam necessárias.
Outra dificuldade é organizar as festas litúrgicas – como Natal, Páscoa ou os padroeiros –, pois não são permitidas grandes concentrações de pessoas. Confidenciaram-me que normalmente nestas datas se fazem duas celebrações: uma pública, na igreja, muito contida e com pouca participação de fiéis, a qual é sempre supervisionada pelo Governo; e outra “secreta”, normalmente em grandes galpões, com uma enorme participação do povo mas a portas fechadas. Esta “dupla vida” da Igreja na China é normalmente referida através da contraposição entre uma Igreja “oficial” e uma igreja “clandestina”, mas dos testemunhos que ouvi praticamente toda a Igreja é “clandestina”, pois ser fiel à doutrina e à Tradição significa sofrer restrições e opressão, mesmo que indiretamente. 
Apesar de todas as agruras e desafios diários que os católicos chineses tem de enfrentar, a fé parece crescer constantemente. Atualmente a China ocupa a posição número 27º da Lista Mundial da Perseguição da Portas Abertas, mas, ao mesmo tempo, também é um dos países onde o cristianismo avança rapidamente, para o desespero do Partido Comunista. É difícil dizer ao certo o número de católicos, mas estima-se algo em torno aos 30 milhões hoje. No ano passado o Vaticano assinou um acordo com Pequim para regulamentar alguns aspectos desta relação difícil, reflexo do estilo aberto e dialogal do Papa Francisco. Mas isso não significa ceder às pressões do Governo chinês. Pelo contrário. O Papa tem intensificado os esforços para que a Igreja naquele enorme País seja sempre mais livre e respeitada. 
Apesar de tantas dificuldades e limitações, os cristãos chineses resistem e dão bom testemunho, por isso “rezemos para que a Igreja na China persevere na fidelidade ao Evangelho e cresça na unidade”.

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