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Uma Igreja perseguida


São imensos os relatos de cristãos perseguidos pelo mundo, de modo especial no Oriente Médio e na África. Comunidades inteiras são atacadas, igrejas destruídas, fiéis martirizados... Exatamente por isso o Papa nos convida a rezar, neste mês de março, “pelas comunidades cristãs, em particular as que são perseguidas, para que sintam a proximidade de Cristo e para que os seus direitos sejam reconhecidos”. 
A opressão e a violência em nome da fé nos levam a pensar que a Igreja está a viver um novo Ato dos Apóstolos. Nesta linha de facto vão muitos testemunhos dos cristãos do Oriente Médio, lugar onde Jesus encarnou e anunciou o Evangelho, e lugar onde nasceu o Cristianismo. Todos recordamos dos relatos de perseguição contra os primeiros cristãos, chamados “seguidores do caminho”. De Estêvão, primeiro mártir, aos milhares de inocentes que jaziam nas ruas, praças e arenas romanas, Lucas nos recorda nos seus Atos estes episódios que ajudaram a construir e solidificar a fé cristã. 
Após o Concílio Vaticano II muito se falou de “refundação” e de voltar às origens. A ideia era aquela de tornar às raízes, ou fundamentos, da fé. De buscar nas origens do cristianismo os valores e a força necessária para afrontar as dificuldades trazidas pela modernidade. Retomar a vivacidade e a profundidade de fé dos primeiros cristãos para responder às ameaças do tempo atual. Entretanto o panorama refletia mais questões conceituais e ideológicas. Certamente os Padres Sinodais não imaginavam que a volta às origens se daria deste modo tão violento, com imensos martírios, por causa da grande resistência em aceitar a fé e o testemunho cristão. 
Para se ter uma visão mais precisa da situação atual, são cerca de 215 milhões os cristãos perseguidos no mundo, 20 vezes a população inteira de Portugal. Segundo a Associação Portas Abertas, que publica anualmente o relatório World Watch List, no ano passado foram cerca de 3 mil os cristãos mortos por causa da fé e mais de 15 mil os edifícios cristãos atacados, entre igrejas, capelas, escolas, casas privadas e lojas. O topo da lista é ocupado pela Coreia do Norte e o Afeganistão, seguidos pela Somália, Sudão, Paquistão, Eritreia, Líbia, Iraque, Iêmen e Irã. O Afeganistão é o país mais violento em absoluto mas em todos estes países são registrados, além de assassinatos, casos de sequestro, tortura, mutilação, destruição de propriedade, discriminação cultural e social, etc. 
Na lista dos 50 países mais violentos encontramos também dois latino-americanos: México e Colômbia. Devido sobretudo à defesa da vida e à oposição ao tráfico de drogas e de pessoas, denunciando publicamente diversos casos, muitos sacerdotes, religiosos e leigos foram perseguidos e mortos nos últimos anos. 
Nenhum país europeu faz parte da lista publicada pela Associação Portas Abertas, mas o Observatório sobre a Intolerância e a Discriminação contra os Cristãos, sediado em Viena, na Áustria, relata cerca de 2.000 casos de discriminação contra os cristãos na Europa anualmente. Dentre estes casos, encontramos atos de vandalismo contra igrejas e relíquias, ataques à cultura cristã, leis anti-eclesiásticas e anticristãs, agressões e até mesmo atentados mortais provocados por extremistas. Já não estamos diante de uma simples indiferença ou anticlericalismo, mas presenciamos casos concretos de violência contra os cristãos, simplesmente pelo facto de quererem viver e testemunhar a sua fé publicamente.
O Papa tem denunciado sistematicamente casos de perseguição e intolerância contra os cristãos no mundo, católicos e não-católicos. Nas suas audiências e discursos, e sobretudo no Ângelusdominical, reza por estes cristãos indefesos e fragilizados, para que jamais sejam esquecidos. Durante este mês, Papa Francisco propõe a toda a Igreja que reze pelas vítimas da opressão anticristã e, na medida do possível, ajude os cristãos perseguidos, diretamente ou através das muitas iniciativas e associações que se empenham em acolher e ajudar estes verdadeiros mártires contemporâneos.

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