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Em busca de equilíbrio integral



São diversos os especialistas que consideram a depressão como o “mal do século”. Não é por acaso, portanto, que o Papa Francisco tenha dedicado sua intenção de oração deste mês de novembro exatamente às pessoas que sofrem desse mal. Mais especificamente, o Papa pede para rezarmos “para que as pessoas que sofrem de depressão ou de esgotamento encontrem nos outros um apoio e uma luz que as abram à vida”.

“A tristeza, a apatia, o cansaço espiritual acabam dominando a vida das pessoas que estão sobrecarregadas pelo ritmo da vida atual”, diz o Papa. De fato, as doenças neuronais como a depressão, a síndrome do déficit de atenção, a hiperatividade, o disturbo de personalidade e a síndrome de burnout determinam o panorama das patologias típicas do século XXI. O filósofo Byung-Chul Han, por exemplo, considera esses males sobretudo como uma consequência da sociedade da prestação e do cansaço, título de um dos seus livros mais famosos. Segundo esse autor, cada época tem os seus males, e os atuais são de origem neuronal ou psicológica. Entre os fatores principais que geram essas enfermidades está a eliminação da “alteridade” (o outro, o diferente), numa sociedade extremamente individualista e egocêntrica que acaba por conduzir diversas pessoas ao desequilíbrio emocional e psíquico. O ativismo cria uma falsa sensação de liberdade e de poder, quando na verdade nos conduz a um constante cansaço pelo excesso de ação, muitas vezes sem objetivo claro, sem rumo. A ilusão do “tudo posso” (“Yes you can”) promovida pela sociedade do cansaço é na verdade um estratagema para alimentar aquela que o autor chama “sociedade da prestação” ou do “resultado”: somos constantemente avaliados unicamente pelo que produzimos, quando deveríamos ser reconhecidos pelo que somos, pelas relações que estabelecemos e pelos valores que alimentamos ou defendemos. É proibido falhar, errar, desistir, voltar atrás... Isso cria um ciclo perigoso que arrasta muitas pessoas para um caminho de sombras e que não raras vezes levam à depressão e outras doenças.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 5,8% da população hoje sofre de doenças mentais, categoria na qual é incluída a depressão. Alguns estudos mais pessimistas dizem que na verdade 19% da humanidade apresenta tais sintomas. A depressão é portanto uma doença e deve ser tratada como tal, procurando ajuda de um especialista. Seus sintomas são diversos, tais como a tristeza profunda, perda de interesse e motivação, ausência de ânimo, oscilação de humor e apetite, insegurança e sensação de vazio, algumas vezes conduzem até mesmo ao suicídio. “Devemos estar pertos dos que estão sem esperança”, nos recorda o Papa. É fundamental que “as pessoas que sofrem de depressão ou de esgotamento encontrem nos outros um apoio e uma luz que as abram à vida”. De fato, somente com o apoio do “outro” é possível superar tais doenças psíquicas, esse mesmo “outro” que a sociedade da prestação tenta afastar e desligar de cada um de nós. Para citar novamente o filósofo Han, agora em outro livro, intitulado Psicopolítica: “sentimo-nos verdadeiramente livres somente numa relação saudável, em um feliz ser-com o outro. Ser livre significa exatamente realizar-se juntos. Liberdade é sinônimo de comunidade feliz”. 

A família é um elemento importante nessa dinâmica de superação da depressão, pois é nesse núcleo que a pessoa deve se sentir segura, apoiada, suportada para vencer o momento difícil e visualizar um horizonte cheio de esperança que a ajude a superar as sombras, descobrindo “uma luz que as abra à vida”. E se concordamos que é o excesso de cansaço e de prestação que nos conduz ao stress e à depressão, ao mesmo tempo que devemos restabelecer as relações com a família, e o “outro” de modo geral, é importante encontrar o equilíbrio entre o ativismo e o descanso, sobretudo entre trabalho e oração, pois vivemos num mundo muito pobre de interrupção, de espaços intermédios, de pausas. 

Se ter colocado o trabalho como único horizonte conduziu diversas pessoas à síndrome de bournout e à depressão, então é preciso que a oração volte a nutrir a vida e o próprio trabalho para se retomar o tradicional equilíbrio monacal que emana do “ora et labora”. É necessário redescobrir o valor da contemplação e do repouso, valorizando a fé e o poder da oração e da liturgia. Este é o desafio lançado para o mês de novembro!

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