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Onde está a minha alegria?


Aproximamo-nos da celebração do Natal do Senhor, um tempo de grande festa e alegria. Nosso coração deve preparar-se para bem acolher o menino, e é exatamente isso o que a liturgia do Advento nos pede. Neste terceiro domingo do advento, somos convidados a meditar sobre duas perguntas fundamentais: onde está a nossa alegria? e: o que devo fazer? Somos convidados a manifestar a nossa alegria, pois Deus está conosco.
Esta é a mensagem da primeira leitura, do livro de Sofonias. Se Deus está no meio do povo, não há o que temer, afirma o profeta. Deus enche-nos de júbilo e de alegria, pois nos renova com o seu amor. O texto que lemos de Sofonias é um trecho acrescentado no período do pós-exílio. Ao voltar da Babilónia, o povo estava muito feliz e sentia fortemente a presença de Deus no seu meio. Foi Deus quem os libertou e possibilitou o início de um novo tempo. O natal é também o símbolo de um recomeço, sinal de que Deus está no mundo, age no mundo, está entre nós, e quer construir nova história e nova sociedade. A profecia está cheia de otimismo, de alegria, de esperança. Os mesmos sentimentos que devemos sentir neste tempo do advento. 
Isso faz-nos pensar na pergunta: onde está a nossa alegria? Se ela estiver na riqueza, na saúde, no emprego, no sucesso, não se sustenta por muito tempo. É uma alegria temporária, passageira. A verdadeira alegria não surge dos bens materiais, mas das relações de amor. Surge do amor a Deus e do amor ao próximo. Não esqueçamos disso.
Paulo, na carta aos filipenses, continua a desenvolver o tema da alegria. Filipos é a primeira cidade europeia a receber o anúncio cristão. Era uma comunidade muito estimada por Paulo. Nesta carta, Paulo exorta a comunidade a alegrar-se no Senhor, pois o Senhor está próximo. Todas as súplicas que apresentarmos a Deus serão atendidas. A alegria, segundo Paulo, surge da certeza da salvação, da relação de Deus com o ser humano. E deve ser refletida na bondade e na fraternidade, ou seja, na relação com os irmãos. A celebração eucarística é um momento privilegiado onde manifestamos a nossa alegria. É momento de súplica, de discernimento e de compromisso com o projeto de Jesus. Na missa damos graças ao Pai, por meio de Jesus. Por sentir fortemente esta alegria que vem de Deus, a comunidade cristã deve ser exemplo de união, de harmonia e de alegria. 
Porque então as nossas missas parecem tão tristes, estagnadas, não atraem os cristãos, especialmente os jovens? Às vezes nos perdemos em ritualismos e não vivemos em profundidade a eucaristia. A missa deve ser uma festa, um momento de manifestação da alegria, pois Deus está no nosso meio. Santa Teresa de Ávila dizia que "um santo triste é um triste santo". Esta frase pode ser adaptada para todos nós hoje, pois "um cristão triste é um triste cristão". E se não manifestamos a nossa alegria, somos tristes. Se somos tristes, precisamos de conversão. Conversão que significa acima de tudo mudança nas relações. Significa assumir um programa de vida que privilegie a partilha, a justiça, o respeito, a honestidade. Estes são os requisitos da nova sociedade.
A conversão conduz a que cada um faça a si mesmo a pergunta: o que devemos fazer? Por três vezes aparece esta pergunta no evangelho de hoje. João, que está preparando a chegada do Messias através do batismo, recebe muitas pessoas. Dentre elas publicanos, soldados e pessoas comuns. Todas porém fazem a mesma pergunta: o que devemos fazer? A conversão exige muito mais do que a vontade. Exige ação. Esta era uma pergunta frequente nas primeiras comunidades cristãs e deveria ser frequente nas nossas comunidades também, pois é o princípio de um programa de vida. João convoca à mudança radical de vida, sinais da nova sociedade que se concretiza em Cristo. As respostas de João mostram que as atitudes do cristão devem ser diferentes das atitudes dos pagãos. O soldado deve ser honesto, o publicano deve ser justo, o povo deve partilhar o que tem. João mostra aqui quais são as fontes da alegria que falávamos no início da nossa reflexão. 
Na proximidade do Natal somos convidados a repetir estas duas perguntas e meditar profundamente sobre elas: onde está a minha alegria? O que devo fazer? Desse modo poderemos determinar um projecto de vida segundo o Evangelho. Um projeto que de fato revele o nosso batismo no Espírito e a nova sociedade iniciada por Cristo.

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