Avançar para o conteúdo principal

XV tempo comum ano A



Estimados ouvintes, nesta semana a liturgia convida-nos a reflectir de modo especial sobre o poder e a força da Palavra de Deus.
Na primeira leitura, Isaías mostra-nos que a Palavra de Deus é viva e eficaz. É como a chuva, que não volta para o céu sem produzir efeito, sem deixar resultados no mundo, sem tornar os solos férteis e produtivos. Esta imagem da chuva toma especial destaque se recordarmos que Israel tem um clima de deserto e a chuva é pouco frequente. Os raros pingos que caem sobre a terra árida produzem uma transformação e são motivos de alegria para o povo. Do mesmo modo, a Palavra de Deus age no mundo, transformando-o. A Palavra traz vida e liberdade para todos, pois revela e concretiza o projecto de Deus. Na concepção hebraica, o termo palavra, ou dabar, significa “o que está por detrás”, ou seja, revela o coração, a força, a essência de quem fala. Através da Sua Palavra, Deus se revela e age no mundo de forma concreta.
Pela Sua palavra encarnada, que é Jesus, Deus liberta-nos da corrupção do pecado e nos torna filhos, libertos pela Sua graça, como afirma-nos o apóstolo Paulo. Pela força da Sua palavra nos tornamos uma família, capazes de suportar todos os sofrimentos do presente, pois sabemos que herdaremos a alegria e a glória eterna.
Este é o destino dos que deixam a semente da palavra agir e produzir frutos. Como vemos na parábola contada por Jesus no evangelho de Mateus, a Palavra de Deus é como uma semente lançada no mundo. As sementes caem em terrenos muito diversos e somente algumas rendem frutos.
Jesus profere esta parábola num contexto específico, o conflito com as lideranças político-religiosas, mas ela reflecte ao menos três realidades bastante claras. A primeira é que Jesus, a palavra encarnada, é o primeiro e principal semeador. Ele veio ao mundo para semear o reino e fazê-lo crescer entre nós. Alguns não o ouviram, outros foram sufocados, e poucos o seguiram, mas o seu reino cresceu, e cresce continuamente.
O segundo momento é o tempo em que Mateus redige o seu evangelho. A comunidade enfrenta muitos conflitos e fracassos. A fé tem uma forte oposição que impede o reino de crescer, mas nada impede que a semente continue a ser lançada e cumpra o seu papel.
O terceiro momento é o hoje. Nós devemos ser os semeadores. Assim como os apóstolos, ao conhecerem os mistérios do reino sentiram-se obrigados a proclamá-lo ao mundo, nós, hoje, ao sermos tocados pela palavra, devemos proclamá-la ao mundo de todas as formas possíveis.
Todos somos terrenos férteis. O que impede a semente de frutificar não é a pessoa que a recebe, mas o contexto externo: as aves, os espinhos, as pedras. São pessoas e estruturas externas que impedem o crescimento do reino e que a justiça se estabeleça no mundo. Por isso devemos combater estas estruturas e impedir que elas interfiram na nossa vida de fé. Devemos vencer a superficialidade que impede a semente do reino de criar raízes. Devemos vencer a pressão da sociedade laicizada e a oposição dos que não são cristãos. Devemos vencer as tentações da riqueza e do poder que nos sufocam. Devemos vencer o egoísmo que nos torna estéreis.
Como a chuva que vem do céu ou a semente que cai em terreno fértil, o Reino vai frutificar e não ficará sem efeito. O tempo que isso levará depende da nossa caminhada na fé e maturidade espiritual. Depende apenas de como reagimos às muitas oportunidades que Deus nos dá de nos tornarmos férteis e produtivos.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Necessidade de uma conversão ecológica

Em outubro passado, através de uma vídeo-mensagem enviada aos participantes do “Countdown”, evento TED mundial sobre mudanças climáticas, o Papa Francisco dizia: “ Estamos vivendo um momento histórico marcado por desafios difíceis. O mundo está abalado devido à crise causada pela pandemia de Covid-19, o que evidencia ainda mais outro desafio global: a crise socioambiental. Isto coloca-nos, todos, diante da necessidade de uma escolha. A escolha entre o que é importante e o que não é. A escolha entre continuar a ignorar o sofrimento dos mais pobres e a maltratar a nossa casa comum, a Terra, ou comprometer-nos a todos os níveis a fim de transformar o nosso modo de agir.” Um ano passou e continuamos a enfrentar momentos difíceis, o que nos leva a refletir ainda mais intensamente sobre a temática enfatizada pelo Papa, ou seja, que  a crise sanitária está plenamente associada à crise socioambiental . Se não passarmos a cuidar da Casa comum, através de uma “conversão ecológica”, não conse...

Munificentíssimo Deus

No editorial de Maio, recordamos a forte devoção à Nossa Senhora presente na comunidade cristã desde os primeiros tempos. Esta estima é confirmada mais uma vez neste mês de Agosto, pois no próximo dia 15 celebramos a Assunção de Maria ao Céu. Esta devoção surgiu no século IV, em Jerusalém, e é celebrada desde o século VI pelas igrejas do Oriente como solenidade. Chamada inicialmente de “trânsito” ou “dormição de Maria”, difundiu-se no Ocidente a partir do séculoXIV. Em 1 de Novembro de 1950 a Assunção de Nossa Senhora foi proclamada dogma de fé, pelo Papa Pio XII, através da bula Munificentissimus Deus. Após estabelecer a relação entre a Imaculada Conceição e a Assunção, e resumir os testemunhos da crença na Assunção, a devoção dos fiéis e o testemunho dos Santos Padres, Pio XII escreve: «Depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus omnipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para ho...

Ajudar os jovens!

Setembro, mês da Palavra, é também o mês em que o Papa nos confia a oração pelos jovens africanos: “ para que os jovens do continente africano tenham acesso à educação e ao trabalho no próprio país”, pede o Papa.  Durante os últimos meses, ou mesmo os últimos anos, a Europa está a ser o destino de uma grande onda de imigração, recebendo uma multidão de refugiados provenientes especialmente do continente africano. Não se pode negar que um movimento migratório como este traz consigo uma série de consequências, muitas delas negativas. A população que o recebe se sente invadida, tolhida dos seus direitos, da sua privacidade, da sua tranquilidade, do seu bem estar, etc. São tantas as críticas, os comentários negativos, os julgamentos. Também são imensas as  fake news envolvendo estes imigrantes que levam naturalmente ao preconceitos e em geral “aumentam” o problema e não ajudam a buscar soluções.  A intenção de oração que o Papa Francisco nos propõe este mês, além de n...