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A Partilha


Neste 32º domingo do tempo comum, a liturgia nos reserva uma importante lição sobre a doação e a partilha, seja do que temos, seja do que somos. As leituras estão centradas na história de duas viúvas, uma do antigo testamento, no tempo de Elias, e outra no tempo de Jesus. Duas viúvas que doam tudo o que tem. A primeira recebe a bênção eterna de Deus, a segunda recebe um elogio de Cristo e certamente a participação no reino.

Nas leituras de hoje vamos ver principalmente que partilhar não depende da abundância de bens, mas da atitude de doação, do amor que se tem no coração.


A primeira leitura é tirada do livro de Reis e mostra o início da missão de Elias. É chamado o início do ciclo de Elias. O profeta chega à Fenícia, uma terra que enfrenta um grande período de seca, atribuído principalmente à idolatria, pois ali se adorava o deus Baal. Elias encontra-se com uma viúva, na cidade de Sarepta. É uma cena forte de fome, dor, decepção, tristeza. A mulher e o filho “esperam a morte”, sem esperança, devido à seca. Aqui a seca significa claramente a ausência de Deus. O culto a Baal afastou Deus daquela região, e agora eles pagam o preço de suas escolhas. Elias chega para devolver a alegria e a esperança àquele povo do norte. Mas para isso eles precisam confiar em Deus. Mesmo sem conhecer o Deus Uno, a mulher demonstra fé e confia nas palavras de Elias. E recebe a sua recompensa.


No evangelho vemos a história de outra viúva generosa. As viúvas eram muito exploradas no tempo de Jesus, pois a sociedade machista da época centrava-se no homem como chefe de família. Sem o marido, a mulher caía nas mãos dos exploradores, em geral os escribas, que cobravam altas comissões para defender os seus direitos. Jesus denuncia esta injustiça, acusando os escribas. Jesus diz: «Acautelai-vos dos escribas, que gostam de exibir longas vestes, de receber cumprimentos nas praças, de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes. Devoram as casas das viúvas, com pretexto de fazerem longas rezas. Estes receberão uma sentença mais severa».


Os escribas as eram os advogados da época, que conheciam a lei a fundo e sabia manipulá-la em proveito próprio. Jesus não aceita esta situação e denuncia no Templo, que não era apenas o centro religioso, mas também o centro político e económico da época. Ali era onde quase tudo acontecia, inclusive as ofertas. Ao ver a pobre viúva dar duas moedas, Jesus fica comovido e tece um largo elogio: «Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros.»


A oferta da viúva é a mais sincera e a exemplo da viúva de Sarepta, não dá daquilo que lhe sobra, mas dá tudo o que têm, confiando que Deus lhe retribuirá. É um valioso exemplo de entrega total nas mãos de Deus, de confiança absoluta, de entrega da vida a Deus. Sem conhecer os 613 preceitos estudados pelos escribas, a viúva os cumpriu a todos, dando a Deus o que é de Deus.


Este trecho marca o fim da vida pública de Jesus, é o seu último ensinamento público. Jesus prepara-se agora para o caminho da cruz, onde manifestará a sua divindade e realizará o verdadeiro sacrifício pela remissão dos pecados do mundo. Na carta aos hebreus vemos descrito o sacerdócio de Cristo, que oferece um sacrifício único e definitivo. Os sumo-sacerdotes judeus ofereciam o sacrifício anual no chamado “santo dos santos”, uma parte reservada do templo. Jesus, ao contrário, oferece o seu sacrifício uma só vez, no céu. Vemos aqui a referência à sua Ascensão ao céu, de onde voltará na Parusia para salvar a todos os que o esperam e têm fé.


Em cada eucaristia fazemos memorial do único sacrifício de Cristo. Por isso, vivamos intensamente este momento, meditando sobre o seu significado e a grande mudança de vida que ele nos proporciona. Que a palavra de Deus e o corpo de Cristo que recebemos na eucaristia fortaleçam em nós a alegria e a esperança, trazendo Deus para perto de nós e acabando com a “seca” provocada pelo culto aos falsos deuses da sociedade actual.

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