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Permanecei no meu amor!


Mais um ano inicia, enchendo-nos de alegrias e expectativas. Na liturgia ainda ressoa o anúncio dos anjos que cantaram a beleza da Natividade – “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor!” (Lc 2,10-11) –, proclamando assim a Encarnação do Verbo, “vindo ao mundo para iluminar todos os seres humanos” (cf. Jo 1,9), momento fundamental na história da Salvação. Que durante todo o ano continuemos a louvar a Deus dizendo juntos com o coro celeste: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14).

Um momento muito forte de louvor acontece já entres os dias 18 e 25, quando o Vaticano e diversos países celebram a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, este ano com o tema: “Permanecei no meu amor e produzireis muitos frutos” (cf. Jo 15,5-9). A essa semana está ligada a intenção de oração do Papa Francisco para janeiro: “Rezemos para que o Senhor nos dê a graça de viver em plena fraternidade com os irmãos e irmãs de outras religiões, rezando uns pelos outros, abertos a todos.”

O movimento ecumênico e a tradição da Semana de Oração pela Unidade contam já com uma longa e sólida história, ganhando força sobretudo a partir do Concílio Vaticano II. O decreto Unitatis redintegratio afirma que “promover a restauração da unidade entre todos os cristãos é um dos principais propósitos do sagrado Concílio”, isso porque a “divisão contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura.”

Desde 1968 os subsídios para a Semana são elaborados conjuntamente pela Comissão “Fé e Constituição” do Conselho Mundial das Igrejas e pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. A partir de 1975, o texto é confiado à redação de grupos ecumênicos locais, cada ano de um país diferente. Este ano o texto base foi elaborado pela Comunidade de Grandchamp (www.grandchamp.org), mosteiro ecumênico feminino que tem suas raízes na década de 1930 em torno das irmãs Marguerite, Geneviève Micheli e diversas outras mulheres da Igreja Reformada da Suíça de língua francesa. 

O tema escolhido tem grande relação com a história e a vida da Comunidade de Grandchamp, atualmente composta por cerca de cinquenta irmãs, mulheres de diferentes gerações, tradições eclesiais e nacionalidades. Como ramo que “não pode produzir fruto por si mesmo, se não permanecer na videira” (cf. Jo 15,1-17), cada irmã é consciente da necessidade de buscar uma sempre mais estreita conexão com Cristo e o seu Evangelho. A Comunidade de Grandchamp se torna assim um exemplo de “parábola viva de comunhão”, com sua intensa vida de oração, caridade, vida comunitária e acolhimento.

Em uma época marcada por profundo individualismo e divisão, é fundamental valorizarmos e nos inspirarmos em bons exemplos de seguimento de Cristo. Provavelmente este é o intuito do Vaticano ao propor a toda a Igreja textos que sublinham sobretudo a centralidade da união e da oração, tendo sempre presente que estamos unidos “em Cristo”. Temos um elemento agregador fundamental, sem o qual não faz sentido a nossa existência. Em outras palavras, só encontraremos a felicidade e a realização pessoal em comunhão com os nossos irmãos e irmãs em Cristo. Só produziremos frutos se permanecemos todos unidos à mesma videira, como enfatiza o texto de João 15,1-17, que inspira o tema anual. Esta videira, Cristo, é a fonte do amor que gera a comunhão e a vida verdadeira. Somente ela pode nos satisfazer plenamente, pois como o próprio Cristo nos diz: “Se vocês permanecerem em mim e minhas palavras permanecerem em vocês, peçam o que quiserem, e isso lhes será concedido.”

A intenção do Papa antecipa também a Campanha da Fraternidade deste ano, cujo tema será “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, com o lema extraído da carta de Paulo aos Efésios: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14). Esta será a quinta CF ecumênica, organizada conjuntamente pela CNBB e outras igrejas-membro do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic). O objetivo geral da CFE 2021 é assim descrito: “convidar as comunidades de fé e pessoas de boa vontade para pensar, avaliar e identificar caminhos para superar as polarizações e as violências através do diálogo amoroso testemunhando a unidade na diversidade”. 

Inspirados pela mensagem do Papa Francisco, que possamos orientar todo este ano 2021 ao diálogo e à unidade, e assim “viver em plena fraternidade” como ele nos convida. Bom ano a todos!

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