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25º domingo do tempo comum C

Neste 25º domingo do tempo comum, a liturgia da palavra nos convida a meditar sobre a administração dos bens e as implicações da riqueza.
Na primeira leitura vemos a quarta visão do profeta Amós. Amós viveu no século oitavo a.C., um tempo de grande prosperidade em Israel, mas também um tempo de muita injustiça e corrupção. Amós é um simples pastor chamado por Deus para denunciar a situação de hipocrisia, opressão e injustiça que se vivia principalmente nas grandes cidades daquele tempo. No excerto que hoje lemos, Amós dirige-se aos comerciantes, que utilizam todos os meios possíveis para lucrar, mesmo que isso passe pela fraude, pelo suborno, pelo engano do povo simples e humilde. A exploração chegava a tal ponto que algumas pessoas eram escravizadas para poderem pagar as dívidas. Pela profecia de Amós vemos que Deus coloca-se do lado dos pobres e oprimidos e pune severamente os exploradores. Amós afirma que a destruição de Israel será completa devido à injustiça que impera em todos os sectores, inclusive na religião.
No evangelho Lucas narra a parábola do administrador, que Jesus dirige aos seus discípulos. Esta parábola é bastante controversa, ou seja, gera muitas interpretações diferentes, é intrigante e de certo modo desconcertante. Jesus apresenta o caso de um administrador desonesto e o destaca como modelo. Mas modelo de que? É nisso que devemos hoje reflectir. Certamente não é modelo de honestidade. O que o evangelho quer nos transmitir é um modelo de conversão, de opção fundamental pelo caminho da fraternidade e justiça que deve ser o guia de todo o cristão.
Jesus está a caminho de Jerusalém e muitos discípulos ainda sentem dúvidas ao segui-lo. A parábola mostra que para ser discípulo são necessários quatro passos: a opção, o desprendimento, a partilha e a fidelidade. É preciso primeiramente abandonar o antigo estilo de vida, quando ligado à desonestidade e à injustiça. O culto ao dinheiro conduz à exploração e à opressão, por isso é contrário a Deus. A fé cristã deve conduzir sempre pelo caminho da partilha e da fraternidade, que conduzem à vida e à liberdade total, como a que o administrador conquista após a sua conversão. O caminho do dinheiro, que passa pela exploração, leva à morte e à escravidão. Quem crê em Deus deve usar o dinheiro unicamente para o bem comum, em favor dos pobres, para gerar a fraternidade, e a igualdade. O fiel não pode deixar-se corromper pela riqueza, pois a astúcia e a ganância podem apresentar resultados a curto prazo, mas só a honestidade e a fidelidade permanecem. A mudança de vida provocada no administrador é que ele passa a confiar no sistema de igualdade e fraternidade, na solidariedade que existe entre os irmãos, abandonando o caminho da usura no qual vivia até então. É nas coisas mais simples e pequenas que descobrimos o verdadeiro caráter das pessoas. Por isso o evangelho nos diz que devemos ser sempre dignos e coerentes nas pequenas coisas a fim de que sejam a nós confiadas as grandes. Devemos ser fiéis a Cristo no testemunho da caridade e da solidariedade para Ele confiar-nos o Seu reino.
Neste processo, somos também convidados a rezar por todos os homens, principalmente pelos que são tentados pelo poder e pela riqueza, como os reis, os líderes e os políticos. Paulo apresenta-nos os princípios do que hoje chamamos oração universal, rezada dentro da liturgia. Convida todos a rezarem e a rezarem por todas as realidades e pessoas, pois Cristo é o salvador de todos e o único mediador entre Deus e os homens.
A liturgia de hoje mostra-nos que devemos ser fiéis ao evangelho sempre, mesmo que sejamos criticados ou ridicularizados pela sociedade que enaltece valores diferentes dos cristãos. Não devemos ter vergonha de viver e difundir os nossos valores, pois eles têm fundamentos muito firmes, estão construídos sobre a rocha.

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