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Meu Senhor e meu Deus!


Estimado leitor, o que é a fé? O que significa esta palavra tão simples, mas que é repetida imensas vezes em todos os tempos e lugares? O que ela representa na sua vida? Gostava de convidar cada um de vós a parar por alguns minutos e reflectir sobre a fé. Este convite não é ao acaso. Parte de uma das festas litúrgicas comemoradas este mês: a festa de São Tomé.
Todos conhecemos o Apóstolo Tomé, escolhido por Jesus para ser um dos Doze, conforme nos narram os evangelhos: Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,15. João chama-o “O Gémeo” (Jo 11,16) na passagem em que Tomé convida os companheiros a acompanhar Jesus logo após saberem da morte de Lázaro. Sabemos também que ele estava presente com a comunidade no dia de Pentecostes e que saiu em missão para evangelizar o Oriente. A tradição diz-nos que foi evangelizar a Índia, onde morreu mártir. Não são muitos os dados sobre a sua vida, mas há dois factos muito significativos que nos ajudam a reflectir sobre o verdadeiro significado da fé.
O primeiro é narrado em Jo 14,1-14, o diálogo de Jesus com os discípulos sobre o caminho que leva ao Pai. «Tomé disse a Jesus: “Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos conhecer o caminho?” Jesus respondeu: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim.”» Tomé é surpreendido com a grande novidade trazida por Jesus, de que Ele e o Pai são um único Deus, que Jesus é o único caminho para Deus, mas deposita n’Ele a sua fé. Crê nas palavras de Jesus, que por sinal são uma das mais belas e profundas auto-definições do Filho de Deus, único caminho, verdade e vida para os cristãos. O caminho que Ele propõe é exigente e pode ser trilhado apenas na fé que enche de força e esperança. Tomé e os outros apóstolos, mesmo sem saber ao certo o que os esperava, seguiram o mestre. Confiaram na sua palavra. Tiveram fé.
O segundo momento fundamental para a compreensão da fé é a hesitação ou «incredulidade» de Tomé narrada em Jo 20,24-29. Tomé não estava na comunidade quando Jesus Ressuscitado apareceu. Ele não crê no relato dos discípulos, pois não «viu» Jesus. Na semana seguinte Jesus aparece novamente e pede a Tomé que ponha o dedo na sua ferida. «Acreditaste porque viste. Felizes os que acreditam sem terem visto» disse Jesus, mostrando que a fé não pode depender de elementos materiais e visíveis. Ela tem o seu fundamento no nosso coração. Como diz-nos a carta aos hebreus: «a fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se vêem» (Hb 11,1).
Vemos aqui que a fé é dom, mas é também decisão. É dom porque a recebemos de Deus, presente eterno que garante-nos a participação em Sua glória. Mas é decisão porque precisa ser aceita e trabalhada. Precisa crescer, evoluir na caminhada cristã. É a nossa resposta à Revelação. É fruto da aceitação do projecto de Deus e da decisão pelo Reino. É fruto do empenho em procurar viver os mandamentos e resultado do esforço pessoal e da busca constante por Cristo.
Fé é a certeza da presença de Deus, da vitória da vida, da primazia do amor. É ter a vida em doação, aceitar o projecto de Deus e trabalhar pela concretização do Reino. É dar vida nova ao ideal de Cristo, através do testemunho, como nos convida Tiago: «meus irmãos, se alguém diz que tem fé, mas não tem obras, que adianta isso?» (Tg 2,14).
Fé é ter Deus no coração e na mente, sempre. Que todos nós, após reflectir sobre o que significa esta palavra tão pequena e tão profunda, possamos afirmar como o Apóstolo Tomé, reconhecendo o princípio e fundamento da nossa fé: «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20,28).

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