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O compromisso da fé


Ao longo do Tempo Comum, a liturgia da Palavra enfatiza a vida pública de Jesus. Ela nos aponta um caminho a seguir, a partir das palavras e acções do Salvador. Acompanhamos Cristo que passa por diversos lugares, encontra diversas pessoas, realiza muitos sinais e apresenta o Reino de Deus a todos. Quando abrimos o nosso coração para seguir Cristo neste caminho, sentimo-nos mais vivos e realizados.
Este é inclusive um belo tema para meditarmos este mês: Como nos empenhamos no caminho de seguimento de Cristo? Como vivemos a liturgia e a palavra viva do Evangelho?
Em Portugal cerca 85% da população declara-se católica, o que seriam actualmente nove milhões de pessoas. Mas segundo o último recenseamento realizado pela Igreja, apenas 18,7% dos católicos participam regularmente da comunidade – pouco mais de um milhão e meio de pessoas. O número dos que são de facto engajados e comprometidos é ainda menor.
A que se deve estes números tão reduzidos? Certamente existem diversos factores, como a laicização do Estado, a associação da fé com algo antigo, o baptismo como mero evento social, a variedade de ofertas religiosas, os falsos valores propostos pela sociedade que chocam com os valores evangélicos e assim por diante.
Mas provavelmente a verdadeira razão é algo muito mais profundo: a fé é exigente. A fé é um compromisso, ela é a nossa resposta a uma proposta de vida dada por Deus através da Revelação. Em Cristo essa proposta se mostra de modo perfeito e definitivo. Isso significa que ao dizermos que somos cristãos – seguidores de Cristo –, assumimos a mesma vida que Ele. Todos deveríamos declarar como São Paulo: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim» (Gl 2,20) ou, ainda, «para mim o viver é Cristo» (Fl 1,21), mas cada vez mais isso parece difícil e distante.
Talvez falta-nos o incentivo ou motivação necessária. Talvez falta-nos descobrir o profundo valor da fé e a riqueza que ela traz à nossa vida. Falta-nos descobrir uma vivência de fé que não seja enfadonha ou mero cumprimento de uma rotina ou preceito social. Isso depende de diversos factores que precisam de ser meditados com prudência.
Mas o que queremos hoje não é apontar ou criticar os que não têm uma participação activa na comunidade. Ao contrário, queremos parabenizar os que vivem a fé sem medo, que dão testemunho, que procuram seguir os preceitos evangélicos. Estes certamente descobriram a alegria de ser cristãos e sentem-se realizados ao participar da celebração eucarística, ao ler e meditar a Sagrada Escritura, ao rezar o terço, ao envolver-se nas mais diferentes actividades pastorais da sua paróquia.
Estes encontraram o verdadeiro significado do seu baptismo e do ensinamento de Cristo. Estes conseguem transformar o Evangelho em prática diária. Vivem realmente o sentido do ser cristão, que no fundo é uma forma de ser, uma ética, que não separa o material do espiritual, mas toma o ser humano em sua plenitude.
Provavelmente você, leitor, é um destes cristãos activos, que não tem medo nem vergonha de mostrar a sua opção de fé. Não se preocupa com os comentários e com as críticas dos que ignoram a profundidade e a beleza da vida cristã. Vive a fé que aprendeu e que a cada dia traz uma sensação de paz e realização.
Parabéns por responder à exigência da fé com convicção. Oxalá Cristo ajude-nos a sermos sempre melhores cristãos, mais dignos e fiéis. E que o nosso testemunho sirva de exemplo para incentivar os chamados “não-praticantes” a viverem mais intensamente a fé.

Comentários

Rita disse…
As transformações materiais influenciam em nossa subjetividade, maneira de ver o mundo, valores e em nossa fé.
O desemprego e a pobreza de um lado, e o individualismo e concentração de outro, distanciam cada vez mais as pessoas da vivência do amor fraterno. As comunidades envelhecem, os dogmatismos se fortalecem...esses tempos difíceis nos fazem renovar o seguimento de Jesus, mas a alegria às vezes nos foge do olhar...

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